Aprendendo e Ensinando

 

 

A SEMENTEIRA É LIVRE...

Fomos criados simples e ignorantes. Simples, porque nada possuíamos, além da oportunidade de evolução que a todos foi dada em igual intensidade. Ignorantes, porque nada sabíamos em relação à Criação, cabendo-nos pensar, desenvolver a inteligência e aprender através de experiências próprias, para conseguirmos a evolução prometida. Deus nos deu a liberdade de escolher, a vontade própria, a capacidade de pensar e de agir, e a lei do amor, justiça e caridade como orientação quanto ao melhor caminho a ser percorrido, gravada em nossa consciência como balizadora de ações e indicadora do certo e do errado.

Nosso destino foi assim determinado pelo Criador: "Devemos evoluir continuamente em espírito e verdade, cumprindo tudo o que está prescrito na lei, amando a Deus sobre todas as coisas, com toda força, com todo espírito, e ao próximo como a nós mesmos".

A justiça de Deus se faz sentir na liberdade de escolha e na avaliação da capacidade, que pudermos adquirir, de cumprir nossos próprios desígnios. Autoriza-nos a agir, mas nos cobra a resposta correta, isto é, nos responsabiliza pelo resultado do que fazemos. A cobrança é tanto maior quanto maior for o discernimento e o conhecimento da verdade que já estiver desenvolvida em cada um. Assim, para os ignorantes, para os que ainda não conseguem perceber a verdade, a justiça de Deus é a misericórdia, mas para aqueles que já compreendem a lei, a misericórdia de Deus é a justiça: "a cada um conforme sua obra".

A evolução moral está ligada à compreensão e à vivência desses desígnios. Tudo o que contraria a lei de amor, Justiça e Caridade é imoral. Evoluir em moralidade é evoluir em espiritualidade, estendendo a mão ao irmão necessitado de luz, de conhecimento e de paz.

O uso que devemos fazer do livre arbítrio é bem orientado pela lei de causa e efeito, responsável pela noção da justiça, a nos indicar que todos somos lavradores do nossos destino, cabendo-nos colher conforme tivermos semeado. Não será possível colher uvas quando plantamos espinheiros. Mas se semearmos a boa semente seremos capazes de colher os bons frutos, resultado do correto plantio.

Os homens devem evoluir, desde o estado de ignorância até a consciência total de si mesmo, fazendo e refazendo suas experiências, entre mergulhos na carne e retornos ao mundo espiritual. Na carne, tem seus sentidos limitados, seus instintos biológicos hereditários influenciando suas ações e sensações, e tem seu espírito aprendendo através dos sentimentos e emoções, balizados pela lei do amor, justiça e caridade.

Em seu caminho para a espiritualidade superior, fazendo e refazendo experiências, o homem usa e abusa de seu livre arbítrio, tendo as dores física e moral como instrumentos de reajuste e aprendizagem. Atingindo o estado de angelitude, segue a lei de Deus por consciência pura, pois sente e exercita a verdade naturalmente, já tendo adquirido e incorporado, em seu ser, os valores imperecíveis que Deus lhe faculta obter.

Mas os seres a caminho da evolução, ainda presos às sensações e aos instintos animais, permanecem em ignorância relativa quanto à verdade, aprendendo pelo processo do ensaio e erro, sendo burilados continuamente pelo constrangimento das dores física e moral. A dor física abate o corpo material afetando seus sentidos e sensações. A dor moral abate o espírito, fazendo com que ele se descubra e se desvencilhe dos envoltórios mais grosseiros de sua personalidade, deixando surgir sua individualidade real. Na medida em que o Espírito chora, seu envoltório fluídico se purifica.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo V, item 7, encontramos uma mensagem de Lázaro em que ele nos ensina: "A igualdade em face da dor é uma sublime providência de Deus, que quer que todos os seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal, alegando ignorância de seus efeitos".

A dor realinha o homem com a verdade. Na medida que aprende, o homem se liberta dos grilhões de sofrimento moral que o aprisionam ao estado de ignorância de si mesmo. O realinhamento, se inicia com sua predisposição de refazer o que não fez bem, a partir do arrependimento e do remorso pelas faltas cometidas, que ele vê como causas verdadeiras de suas aflições. A tomada de consciência gera o desejo sincero de retomada do caminho da virtude, a que todos são compelidos pelo determinismo da lei de Deus. E a misericórdia de Deus dá a Justiça como orientadora do caminho da virtude: a sementeira é livre, mas a colheita é obrigatória.

Para melhor compreendermos como funciona a misericórdia do Pai a respeito do uso que fazemos do livre arbítrio, selecionamos no livro Estante da Vida, escrito pelo Irmão X, um conto intitulado "Sementeira e colheita".

Conta-nos assim, o Irmão X:

Certo homem, enredado no vício da embriaguez, era freqüentemente visitado por generoso amigo espiritual que lhe amparava a existência.

Arrepende-te e recorre à Bondade Divina! – rogava o benfeitor quando o alcoólatra se desprendia parcialmente do campo físico, nas asas do sono – Vale-te do tempo e não adies a própria renovação! Um corpo terrestre é ferramenta preciosa com que a alma deve servir na oficina do progresso. Não menosprezes as forças!...

O infeliz acordava, impressionado. Rememorava as palavras ouvidas, tentava mentalizar a formosura do enviado sublime e, intimamente, formulava o propósito de regenerar-se.

Todavia, sobrevindo a noite, sucumbia de novo, à tentação.

Embebedando-se, arrojava-se a longo período de inconsciência, tornando ao relaxamento e à preguiça.

Borracho, empenhava-se tão-somente em afogar as melhores oportunidades da vida em copinho sobre copinho.

Entretanto, logo que surgia alguma faixa de consciência naquela cabeça conturbada, o mensageiro requisitava-o, solícito, recomendando:

- Atende! Não fujas à responsabilidade. A passagem pela Terra é valioso recurso para ascensão do espírito... O tempo é um crédito de que daremos conta! Apela para a compaixão do Senhor! Modifica-te!...

O mísero despertava na carne, lembrava a confortadora entrevista e dispunha-se ao reajustamento preciso; no entanto, depois de algumas horas, engodado pelos próprios desejos, caía novamente na zona escura.

Ébrio, demorava-se meses e meses na volúpia do auto-esquecimento.

Contudo, sempre aparecia um instante de lucidez em que o companheiro vigilante interferia.

Novo socorro do Céu, novas promessas de transformação e nova queda espetacular.

Anos e anos foram desfiados no milagroso novelo do tempo, quando o infortunado, de corpo gasto, se reconheceu enfermo e abatido.

A moléstia instalara-se, desapiedada, na fortaleza orgânica, inclinando-lhe os passos para o desfiladeiro da morte.

Incapaz de soerguer-se, o doente orou, modificado.

Queria viver no mundo e, para isso, faria tudo para recuperar-se.

Em breves segundos de afastamento do estragado veículo, encontrou o divino mensageiro e, ajoelhando-se, comunicou:

Anjo abnegado, transformei-me! Sou outro homem... Estou arrependido! Reconheço meus erros e tudo farei para redimir-me... Recorro à piedade de nosso Pai Todo-Compassivo, de vez que pretendo alcançar o futuro na feição do servidor desperto para as elevadas obrigações que a vida nos conferiu...

O protetor, abraçou-o, comovidamente, e, enxugando-lhe as lágrimas, rejubilou-se, exclamando:

- Bem-aventurado sejas! Doravante, estarás liberto da perniciosa influência que até agora te obscureceu a visão. Abençoado porvir sorrirá ao teu destino. Rendamos graças a Deus!

O doente retomou o corpo, de coração aliviado, coma a luz da esperança a clarear-lhe a alma.

Mas os padecimentos orgânicos recrudesciam.

A assistência médica, aliada aos melhores recursos de enfermagem, revelava insuficiência para subtrair-lhe o mal-estar.

Findos vários dias de angustiosa dor, entregou-se à prece com sentida compunção e, amparado pelo benfeitor invisível, achou-se fora da carne, em ligeiro momento de alívio.

- Anjo amigo – implorou -, acaso o Todo-Bondoso não se compadece de mim? Estou renovado!... alterei meus rumos! Porque tamanhas provas?

O guardião afagou-o, benevolente, e esclareceu:

- Acalma-te! O sincero reconhecimento de nossas faltas é força de limitação do mal em nós e fora de nós, qual medida que circunscreve o raio de um incêndio, para extingui-lo pouco a pouco, mas não opera reviravoltas na Lei. O amor infinito de Deus nos descerra fulgurantes caminhos à própria elevação; todavia, a justiça dEle determina venhamos a receber, invariavelmente, segundo as nossas obras. Vale-te do perdão divino que, por resposta do Senhor às tuas rogativas, é agora em tua alma anseio de reajuste e dom renovador, mas não olvides o dever de destruir os espinhos que ajuntaste. O arrependimento não cura as afecções do fígado, assim como o remorso edificante do homicida não remedeia a chaga aberta pelo golpe da lâmina insensata!...Aproveita a enfermidade que te purifica o sentimento e usa a tolerância do Céu como novo compromisso de trabalho em favor de ti mesmo!...

O doente desejou continuar ouvindo a palavra balsamizante do amigo celeste... A carne enfermiça, porém, exigia-lhe a volta.

Contudo, recompondo-se mentalmente no corpo fatigado, embora gemesse sob a flagelação regeneradora, chorava e ria, feliz.

 

Os vícios, as paixões inferiores ligadas aos instintos biológicos são os maiores entraves para a evolução do homem. Mantendo-se em estado de ignorância, caracterizada pela fraqueza de caráter, pela pobreza de luz espiritual, e pelo desconhecimento de sua essência divina, o homem se aprisiona em ilusões que o impedem de ver a verdade. Preferem usufruir os prazeres da carne, movidos pela sensações provenientes dos instintos.

Usam a inteligência e a vontade própria para sofisticar a satisfação de suas necessidades primárias, ultrapassando os limites da normalidade, desrespeitando os direitos e as necessidades de seus semelhantes. Mergulham num mundo de ilusão que os aprisionam e deformam. Desrespeitam o santuário do corpo abusando das faculdades que lhes foram dadas, embrenhando-se em vícios de toda ordem. Apegam-se à vida pelos prazeres materiais, sem a capacidade de perceberem sua essência de espíritos eternos.

Assim comparecem diante da morte do corpo físico. Prisioneiros de sensações ilusórias. Sua passagem para o plano espiritual será tanto mais dolorosa quanto mais ilusório for o quadro traçado durante a vida material. São escravos dos excessos que cometeram e mantém-se ligados aos pensamentos deformados que alimentaram durante sua existência corpórea.

Mas o Pai de Infinita Bondade e Misericórdia jamais abandona seus filhos, permitindo que mensageiros da boa vontade os orientem e os concitem à renovação do pensamento e ao aumento da percepção. O caminho da regeneração, isto é, da oportunidade de refazer, é sempre concedido, mas agora traz os fardos ampliados em intensidade pelas conseqüências dos desatinos cometidos. Se prejudicamos o corpo, teremos dificuldades para reequilibrá-lo. Se prejudicamos a outros, seremos impelidos a ampará-los de alguma sorte, diminuindo suas dores e compartilhando as luzes que já fomos capazes de perceber. Esta é a semeadura que cabe àquele que, intimamente, renova os propósitos de regeneração. Compreendendo as conseqüências de seus deslizes, em novo nível de percepção, ajuda seu semelhante, mas continua sofrendo na busca incessante da paz, até que tudo o que tenha desalinhado retome o destino correto.

É necessário perceber a verdade de que as dores daqueles que nos são caros nos afetam diretamente, impelindo-nos a sofrer e aprender com os momentos de angústia e desequilíbrio de nossos irmãos mais chegados. Esta é a lei da justiça. Esta é a colheita obrigatória daquele que se candidata, por influxo de Deus, ao destino da angelitude na espiritualidade superior.

Os espíritos superiores não param e trabalham incessantemente para auxiliar a paz do mundo, sentindo-se co-responsáveis pela evolução de todo irmão que sofre, neste mundo de provas e expiações.

 

 

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